Entretenimento

Black Mirror: Bandersnatch, a primeira obra-prima da era pós-televisão.

em 29 de dezembro de 2018
Bandersnatch (Netflix, 2018)

Primeiramente: eu escrevo esse texto agora as 2:30 da madrugada (horário brasileiro de verão), por uma necessidade. Não do tipo contratual, não de entrar no trem do hype, nem de abordar o mesmo assunto que centenas de milhares de outros blogs sobre cinema e televisão vão abordar, provavelmente com mais perícia do que eu. Mas sim por uma necessidade pessoal, porque agora, às 2 horas eu acabo de assistir (e interagir com) Black Mirror: Bandersnatch e eu quero tirar esse momento para, respirar, e relatar tanto a expectativa com a que eu fui assistir a esse "filme" e a impressão e sentimento que eu tenho agora.

É bastante coisa e é bem fácil perder o fio da meada aqui, mas dito isso, vamos em frente. Digo "filme" porque Bandersnatch é descrito como "a Netflix interactive movie", se destacando do modelo de episódios e temporadas em que Black Mirror vem sendo lançada. E se a Netflix não poupa esforços para moldar forma como consumimos entretenimento na atualidade, investindo pesado não só na produção de conteúdo original para sua plataforma, mas também em pesquisa, algoritmos para detectar nossos padroes e machine learning para definir o que e como vai ser esse conteúdo, Bandersnatch é uma aventura num formato novo, que não deve parar por ai.

Caso não tenha dado pra perceber ainda, eu não pretendo entregar nenhum spoiler aqui, até mesmo porque a minha empolgação transcende a história em si. Na verdade, falando na parte da expectativa, eu estava com um pé e meio atrás com esse novo episódio de Black Mirror. Isso porque, até hoje eu não desgostei de NENHUM episódio. E esse dia vai chegar. Eventualmente? Né? Enfim... somando isso a tag de "interativo" eu criei a suspeita de que talvez, finalmente, a série tivesse dado um passo a mais do que deveria, que fosse por um caminho de mudar por mudar, sem adicionar nada, que talvez a tecnologia ainda não estivesse aqui e a experiência fosse desengonçada.

Ao mesmo tempo, essa mesma tag me causou curiosidade demais para esperar pra ver. Porque eu normalmente demoro pra ver as coisas, eu deixo elas lá na minha lista esperando a ocasião certa. Mas dessa vez não ia ser assim, não era possível evitar.

Antes de começar Bandersnatch, uma irritação: eu não ia poder ver do sofá, na tela grande. Isso porque a tecnologia que faz o filme funcionar não é compatível com a minha TV. Sim, vivemos em tempos em que o filme tem que ter compatibilidade com o dispositivo. Então, eu teria que ver sentando na cadeira em frente ao computador, com o mouse na mão. Essa última parte é explicada pela Netflix num pequeno tutorial pré-filme. Novos tempos.

Mas a quase-que-irritação termina por ai. Vamos falar da história: Bandersnatch traz para o universo Black Mirror a história de Stefan, um jovem programador que em 1984 trabalha em, Bandersnatch, adaptação para games de um livro interativo estilo "escolha sua própria aventura". Stefan se vê então na Tuckersoft, desenvolvedora de games para qual trabalha seu ídolo Colin Ritman e é aí então que começamos a tomar conta de suas decisões.A história (independentemente das suas decisões) é trippye regada a uma trilha sonora 80's, com direito a Tangerine Dreame Eurythmics, o que por si só ja é sensacional. Falando dum ponto de vista mais técnico, a escolha da fotografia, sempre com enquadramentos muito próximos e cores levemente dessaturadas, é fundamental e faz um ótimo trabalho ao nos aproximar do estado mental de Stefan e de como "suas" decisões lhe afetam.

De qualquer modo, são tantas as coisas a se ver e a se comentar, com easter-eggs e referências de outros episódios do universo Black Mirror, alem de tantas possibilidades a serem exploradas apenas nesse episódio que a melhor coisa que você, leitor que ainda não viu Bandersnatch, pode fazer, é correr ver agora. Isso se o seu dispositivo for compatível. :)

Mas comentemos sobre esse título nem um pouco sensacionalista: a primeira obra-prima da era pós-tv. Mantenho a palavra. Bandersnatch será revisitado no futuro como um marco no entretenimento, uma ponte entre formatos, ou um formato a parte. A Netflix ja estuda outros títulos a serem entregues nesse modelo interativo, que é elaborado e cultivado internamente desde 2012, e é evidente que a escolha de um episódio de Black Mirror para estrea-lo não é aleatória. Todo o universo Black Mirror, suas histórias, seus personagens, sua abordagem do mundo moderno e - talvez principalmente - seu público, se encaixam perfeitamente nessa nova experiência proposta pela Netflix. Experiência que com certeza não seria e não será possível para a grande maioria do títulos, pelo menos no futuro próximo.Ainda assim, a primeira impressão desse modelo "interactive movie"é ótima e o responsável por isso é Black Mirror: Bandersnatch. Voltaremos a falar dele em outro momento, com menos sono e mais objetivamente, mas, por enquanto é isso.

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